NO ACRE, COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ


Publicado originalmente no Blog do Altino Machado
POR EDSON LODI

Abro os olhos no salão do bailado do centro fundado por mestre Raimundo Irineu Serra. Vejo homens, mulheres, jovens e algumas crianças a cantar, a tocar maracá e a bailar com o corpo e com o espírito iluminado pela luz do Daime. Tudo é tão singelo e ao mesmo tempo tão sério que tenho a impressão de que retorno a um tempo imemorial, em que Deus ensinava pela música e pelo movimento das verdes palmeiras tocadas pela brisa serena.

Do outro lado do salão, uma senhora observa a tudo e a todos. Semblante calmo e olhar profundo. Talvez tenha saudades das noites em que os maracás também soavam e de mestre Irineu, seu esposo e guia espiritual; que, mesmo sendo tão alto, tinha a missão mais elevada ainda.

Estou sentado em um banco, entre tantas cores e músicas divinas, orquestradas por simples maracás, e observo madrinha Peregrina. Ela está no outro lado do salão, com porte de digna e solene senhora ayahuasqueira. Ela comemorava 74 anos neste 14 de julho.

Peço ao Criador que a mantenha com saúde e alegria entre nós. Meu coração também ressoa com entusiasmo – há um maracá e um Cruzeiro em meu peito. Que sejam longos seus dias, sempre com o sol e o brilho da lua e das estrelas a embalar seus sonhos.

Neste salão, me alegro por ter em recordação coisas tão importantes para a nação ayahuasqueira, acontecidas recentemente. No dia 11 de julho tivemos uma sessão solene, na Câmara dos Deputados, em homenagem aos 50 anos do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, por iniciativa da deputada Perpétua Almeida (AC) e do deputado Wolney Queiroz (PE).

A presença da União do Vegetal no Plenário da Casa do Povo Brasileiro é motivo de júbilo para toda a comunidade ayahuasqueira. É mais um reconhecimento pelo Estado do trabalho religioso desenvolvido pela União do Vegetal e, por extensão, do uso religioso da ayahuasca. Em minha lembrança ficará gravada por muito tempo as palavras da deputada Perpétua Almeida – intransigente defensora de nossos direitos religiosos –, após receber a bandeira da UDV das mãos de mestre Pequenina, que se encontrava na tribuna:

– Recebo esta bandeira em nome do parlamento brasileiro, como símbolo do direito constitucional do livre exercício dos cultos religiosos.

Semelhante homenagem aos 50 anos da UDV foi igualmente prestada pela Assembleia Legislativa do Estado do Acre – solicitada pelo deputado Eduardo Farias e aprovada por unanimidade por todos os seus pares – no dia seguinte, 12 de julho.

Foi mais um momento de emoção, ao ver que o Estado do Acre homenageou mais uma vez o mestre Gabriel – que andou em terras de Vila Plácido – e sua obra, a União do Vegetal. Este acontecimento foi prestigiado por amigos tantos e irmãos de luz da comunidade religiosa do Acre, representados pelo Sr. Manoel Pacífico da Costa, Secretário-Geral do Instituto Ecumênico e Fé e Política do Acre.

Nesse mesmo sentido tivemos a fala de alguns deputados evangélicos que agradeceram os esclarecimentos prestados, reafirmando o compromisso com a liberdade religiosa. A apresentação do Coral da Amizade e a fala da Conselheira Odaíza, da UDV, emocionaram a todos os presentes. A casa de Frei Daniel Pereira de Matos estava representada pelo Francisco Araújo e outros queridos amigos.

As palavras proferidas por Toinho Alves sintetizam os sentimentos de respeito pelo trabalho que a UDV vem realizando:

– A União do Vegetal é uma guardiã do uso religioso da Ayahuasca.

À noite, durante a reunião da Câmara Temática de Culturas Ayahuasqueiras, coordenada pelo amigo João Guedes Filho, tive a honra de ser convidado para prestar minha modesta colaboração em um trabalho de grande relevância social: a elaboração de uma cartilha para incluir a história das religiões ayahuasqueiras dentro do ensino religioso da grade escolar do Estado, trabalho a ser escrito pelo historiador Marcos Vinicius.

Esta oportuna iniciativa manterá o Estado do Acre na vanguarda da prática fiel da tolerância religiosa. Queira Deus que estes exemplos se espalhem por outros estados brasileiros e se tornem uma realidade entre todos os segmentos sociais.

Nesse momento de reflexões, faço silenciosamente uma oração agradecendo a pronta e firme intervenção do senador Jorge Viana e da Assembleia Legislativa do Acre em relação aos recentes acontecimentos que envolveram o nome do sacramento religioso na mídia acreana, com a incineração de alguns litros de Daime em meio a drogas proscritas.

Enquanto refaço todos estes acontecimentos em minha memória, espocam os fogos de artifício clareando o céu da comunidade do Alto Santo. Sinto-me como um menino espantado com a grandeza da luz. Em meu coração aprendiz, louvo a Deus em todas as suas formas.

Pela manhã estive no núcleo Jardim Real, abracei os irmãos da UDV, pleno do mesmo sentimento e com a certeza de que estou e estarei sempre em boa companhia.

Edson Lodi é escritor, do quadro de mestres e coordenador de relações institucionais do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal

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