No bonde do pânico do H1N1


Uma reportagem clara e direta sobre o pânico fabricado pela mídia americana e que foi comprado pelo resto do mundo: A malvada gripe matadora H1N1, a gripe porcina.

De CRISTIANE SEGATTO – Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo.

Minha primeira reação foi de revolta. Assim como milhões de brasileiros, fui excluída da campanha de vacinação contra o vírus A (H1N1), causador da gripe popularmente chamada de suína. Perceber que sua vida vale menos que a dos outros nunca é agradável. Foi o que senti ao tomar conhecimento dos grupos prioritários estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Faço 40 anos em abril. Os adultos saudáveis de 30 a 39 anos receberão a vacina a partir de 10 maio (confira o calendário). Por apenas 19 dias, perdi a chance de ser vacinada.

Sim, considero que não tomar uma vacina é uma perda. Das grandes. Principalmente quando a dose está disponível gratuitamente. As vacinas são uma enorme conquista da Humanidade. Podemos dividir a história da luta da espécie humana pela sobrevivência neste planeta em dois momentos: antes e depois da invenção das vacinas. Se hoje podemos sonhar em viver 100 anos, devemos agradecer aos cérebros que criaram formas de imunização contra tantas feras microscópicas.

Por interesse pessoal e jornalístico, decidi investigar se vale a pena comprar a vacina numa clínica privada. Conversei com especialistas, refleti sobre o alarde criado em torno desse vírus e cheguei à conclusão de que minha reação havia sido precipitada. Agora estou decidida: não vou comprar essa vacina. Ainda não me convenceram a embarcar no bonde do pânico.

O vírus da gripe suína não mata mais do que o da gripe comum. Nunca foi mais letal do que os vírus causadores das gripes com as quais convivemos recentemente. Não era mais letal no ano passado. Não se tornou mais letal agora. A diferença é que os casos graves (nos quais ocorre comprometimento dos pulmões) estiveram mais concentrados na faixa etária dos adultos jovens. Em julho de 2009, escrevi aqui nesta coluna que não via razão para tanto barulho em torno desse vírus. Continuo não vendo.

De lá para cá, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi acusada por políticos europeus de ter exagerado nos alertas emitidos sobre o H1N1 para favorecer os fabricantes de vacinas e do antiviral Tamiflu. Não acredito que a OMS tenha agido daquela maneira com a intenção deliberada de favorecer empresas. Talvez eu esteja sendo ingênua, mas ainda confio nessa instituição. Acredito, porém, que ela tenha adotado uma estratégia de comunicação desastrada. Até isso é justificável quando lembramos que em julho e agosto ninguém sabia de que forma o vírus iria se comportar. Em muitas ocasiões no passado, o surgimento de um vírus influenza diferente provocou catástrofes. Os tantos alertas emitidos, portanto, tinham algum fundamento. Se a OMS pecou foi por excesso de cautela.

O fato é que o H1N1 não era tão perigoso quanto poderia ter sido. E, de lá para cá, parece ter sofrido uma atenuação. O índice de morte entre os infectados é inferior a 1%. Assim como ocorre com a gripe sazonal de todos os anos. Todos os anos havia mortes por gripe. A diferença é que elas não eram notícia.

Os especialistas acreditam que no inverno de 2010, o Brasil terá uma situação mais tranquila do que no ano passado. “Se já não havia razão para pânico em 2009, agora há menos ainda”, diz o infectologista Esper Kallás, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

“Estima-se que até um terço da população brasileira tenha pego o vírus no ano passado. Essas pessoas não terão gripe nem transmitirão o H1N1”, diz Kallás. Além disso, o Ministério da Saúde espera vacinar 96 milhões.

Ou seja: a probabilidade de que eu pegue esse vírus neste ano é bem mais baixa do que no ano passado. Se eu for infectada, o risco de que eu sofra alguma complicação mais grave também é baixíssimo. Afinal, não faço parte de nenhum dos grupos nos quais foram registrados mais casos graves e mortes. Fazem parte desse grupo, os doentes crônicos, as pessoas imunodeprimidas, as gestantes, as crianças entre 6 meses e dois anos, os obesos, os adultos jovens. Todos eles (além dos idosos, indígenas e profissionais de saúde) foram acertadamente incluídos na campanha de vacinação do governo.

Se eu pegar o H1N1, é provável que eu sinta mal-estar durante uns dias ou caia de cama. E, uma semana depois, esteja pronta pra outra. Há outra possibilidade: talvez eu já tenha pego esse vírus e nem tenha percebido.

Termine de ler aqui: Coluna da Cristiane Segatto na época.

Etiquetado , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: