Jagunços encapuzados incendeiam aldeia irlandesa


O período da história Irlandesa conhecido como a “Grande Fome”, de 1845 a 1860, dizimou quase dois milhões de pessoas, a grande maioria crianças. A população vivia em pequenos lotes de terra e seu sustento era baseado em leite e batata. Em 1845 a plantação sofreu um ataque de uma doença que fazia com que as batatas apodrececem embaixo da terra, exalando um odor muito forte e tornando-as impróprias para consumo.

Nada foi feito e em 1846 o “The Central Relief Committee of the Society of Friends (Quakers)” fez as vezes do governo e procurou preencher a lacuna, oferecendo alimento à população.

1847 ficou conhecido como “47 negro”, quando o inverno foi mais intenso e os colonos não conseguiam colher as batatas por conta do solo congelado. Para piorar, um surto de tifo matou dezenas de milhares, incluindo a população mais abastada, já que a peste invadiu as cidades.

Em 1848 a cólera chegou e as batatas voltaram a apodrecer. A mesma coisa em 1849. Em 1850 a fome acabou, mas os efeitos foram sentidos por muito anos. Este evento também deu causa à imigração dos irlandeses para a América do Norte nos Navios Caixões.

Os plantadores estavam subjugados aos proprietários de terras, que exigiam parte da colheita para seu sustento como pagamento. Como muitos não tinham nem para seu próprio sustento, não conseguiam atender esta demanda e as expulsões tornaram-se comuns. Bandos de jagunços atacavam as casas, queimando-as e matando quem se negasse a sair. Sem o teto para protegê-los do frio, muitos morriam antes de conseguir mudar para outras terras. Estes grupos de jagunços eram compostos por bandidos das cidades e policiais paisanos.

No Paraná, quatro décadas depois do último conflito, descendentes de escravos voltam a ser ameaçados por jagunços. Veja a matéria publicada na Gazeta do Povo, Bruna Maestri Walter em Doutor Ulysses.

“Quase quatro décadas depois do último episódio de violência contra os descendentes de escravos na Comunidade Quilombola do Varzeão, a tensão voltou ao município de Doutor Ulysses, no Vale do Ribeira, divisa do Paraná com São Paulo. Três casas dos quilombolas foram incendiadas na sexta-feira. Os moradores dizem ter sofrido abuso policial e agora ninguém sai da comunidade, onde vivem 56 pessoas numa área de 800 alqueires. A única ação de segurança, segundo eles, foi a colocação de toras de árvores para bloquear a estrada.

O abuso, relatam os quilombolas, teria começado na terça-feira, quando oficiais de Justiça e policiais militares tentaram cumprir um mandado de busca e apreensão de tratores e caminhões, por ordem de um juiz em favor de madeireiros. Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Militar, os moradores estariam usando os equipamentos pertencentes aos madeireiros.”

Existe um span de 160 anos entre um acontecimento e outro, mas as agressões são muito semelhantes, motivadas por situações completamente diferentes em essência. Na Irlanda havia a fome, o tifo, a cólera e o inverno como causas basilares que por sua vez aumentaram a ganância dos landlords, o medo da própria morte, o instinto de sobrevivência e des-humana-idade. Hoje só há ganância e des-humana-idade. Se naquele momento já houveram humanos que trabalharam para mitigar o sofrimento, hoje não se fazer menos do que eliminar o problema. Segundo a matéria

“… o presidente da Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo do Varzeão, Juventino Rodrigues de Castro, diz que os cinco policiais, os dois oficiais de Justiça e os 12 jagunços usaram de violência mesmo sem resistência dos moradores. “Aqui ninguém tem arma”, afirma. Eles registraram uma ocorrência policial sobre o caso e também comunicaram o Ministério Público.”

Com a ciência do Ministério Público, o mínimo que se espera é que todos os envolvidos sejam punidos com o rigor que lei permita. Nosso país já sofre muito com o título de violador dos direitos humanos em prisões e favelas, aceitar mais este título sem fazer nada é atestado de culpabilidade e incompetência política. Parece chover no molhado, mas eu é que não vou ficar calado.

Etiquetado , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: